04 junho 2013

Desmagoando

Quero que você saiba que não aceito ser agredido. Não por você. Que chorou junto. Que bebeu junto. Que estava lá. Não por você.

Mas de tudo o que passou um dia só sobrou essa saudade de falar contigo.

O resto é eco e ego eco e ego eco e ego.

O resto é oco.

Bed trip

O feriado acabou.

Comigo.

19 abril 2013

Animal musical

Ontem a noite conheci o Samba, e a Naima.

Samba é negro, alto, e percussionista profissional.

Mas Samba prefere tocar música bálcã e judaica.

Naima gosta do Coltrane, também de jazz e de misturas de gênero.

Complexa como música modal, tem um final leve e pra cima, sem resolver muita coisa.

Tanto Naima quanto Samba eu conheci em São Paulo, longe do túmulo.

Vivos e ao vivo.

15 março 2013

Processo

A vida enquadrou sua arte
e acho que isso faz parte
de um engano
a moldura é a censura
dos seus planos
de mudar o mundo
com muita tinta e distorção
sei não

07 março 2013

Modorra

Acordo nesse apartamento
solidão a cem por cento
não há remédio nem unguento
que dissolva a sensação
que o mundo está girando
e eu não

14 fevereiro 2013

Habladurías

- É impressionante como as pessoas recorrem as línguas estrangeiras quando vão falar bullshit.

08 fevereiro 2013

Mostra tua cara

Postes: as chagas abertas da nossa terceiro imundície.

01 fevereiro 2013

Art of survival

O que importa é que ainda há cancha.

O resto é retrovisor.

23 janeiro 2013

Chinelagem

Mergulhei naquelas ondas de ponta, querendo que com elas se fossem meus problemas. O que é o mar, afinal, senão um imenso banho de sal grosso? Eu costumava sonhar que conseguia respirar embaixo d'água, e não sei porque isso acabou. Também acabou minha poesia pronta, rodada, dessas que piscam por aí de vez em quando. Agora é apenas uma imaginação. O oceano é imenso. As algas poderiam frequentar outras praias. Mas me preferem. Sempre fui ruim em dividir. Mas desenvolvi uma técnica de ajeitar os cabelos com as ondas. E algas.

Eu escreveria uma grande novela se pudesse beber que nem o Hemingway. Travado, rifle em punho, ajudando a libertar Paris. Ao menos isso é o que eu diria a todos. Mas a frase curta está datada, e a longa sempre cansou. Dizem que o atum é a ferrari do mar porque nada longe e rápido. Talvez fosse essa a saída. Fluir. Como atum. Nada. Nada. Nada. Tudo isso na água. Na volta, pedalando lixo na areia, percebi. Roubaram minhas havainas amarelas, sujas e usadas. Tinham a bandeira do Brasil.

17 dezembro 2012

Porteñadas

Duas conversas captadas em uma longa caminhada por Puerto Madero.

Enquanto o sujeito corria com um colega, explicava as mudanças ocorridas no trabalho, e perguntava:

- Que hacer se te ponen de jefe un tipo más boludo que vos?

Poucos passos adiante, um menino de uns oito anos, no máximo, corre à frente da mãe, e maravilhado, grita:

- Todo eso es un chiste típico de los ochenta!

Confirmei se não havia ficado perdido na tradução, e não fiquei. Talvez de década ou dimensão, mas não na tradução.


14 dezembro 2012

Arácnido en tus pelos


Embaixo de uma marquise em Palermo deixei o guarda chuva cair para o lado, enquanto a água escorria entre nossos lábios macios.  Já não fazia diferença molhar mais, pouca coisa importa de olhos fechados depois do dilúvio. Éramos infinitos como um beijo adolescente, como são infinitos todos os beijos adolescentes. Tentava traduzir, médio borracho, as letras de um viejo tango. Como são velhos todos os tangos. A luz faltava em metade da cidade, não que eu me importasse, mas tudo ficava mais amarelo na parte iluminada da calçada. Senti falta do chapéu que ainda não achei, mas que me pedia o ar meio cinza. Imaginei se era essa a última cor que viu Borges antes de ver todas as cores na escuridão. Um casal olhava o nada na escada do Rivadavia, enquanto os gatos não se importavam com o portão fechado, e faziam da rua seu parque. O mundo pedia um cigarro, e rezei para que se fizesse o frio, para que eu tivesse um sobretudo. Não haveria noites suficientes para que eu envelhecesse o que queria, mas embaixo de uma marquise em Palermo senti o braço dela se derrubar sem forças e o tempo foi só um detalhe que se fue, sin palavras, hasta el último recuerdo.

08 outubro 2012

Nunca diga eu te amo 6

Porque a primavera começou para mim no desabrochar do seu sorriso.

22 agosto 2012

Estratégia vencedora

Perder perder perder até perder perder o sentido.

Nunca diga eu te amo 5

Porque eu te daria minha vida, o mundo, as estrelas e todos os clichês que coubessem nessa frase.

21 julho 2012

Muito pouco

Duas folhas são o suficiente para enxugar as mãos o caramba.

13 julho 2012

Segurança priva

- Visual na janela. Vítima segura. Acesso limpo.

As sirenes cessaram, a pedido do sequestrador. Helicópteros rodando o ar, ainda assim dava para ouvir cai-cai balão tocando na vitrolinha amarela.

- Negativo, Bravo! Risco para o refém. Manter alerta.

Respiração controlada. Ele estava na mira, mas o refém poderia se machucar na queda. O acesso era limpo. Afrouxou um pouco o dedo do gatilho, respirou, mascou duas vezes o chiclete. Apurou o fone de ouvido.

- O alvo vai fazer uma exigência. Segura até ok do comandante, copiou, Bravo?

- Positivo.

O negociador, psicólogo experiente, foi chamado. A mãe gritava vez por outra, xingava. O negociador pediu que a levassem para longe. Ele ia falar, fazer exigência. Resgate? Helicópteros? Uma arma? Imunidade e dólares?

- Uma mamadeira!

O negociador hesitou. Fora dos parâmetros. Nunca haviam pedido mamadeira. Perguntou novamente.

- Eu quero uma mamadeira. E leite ninho, reforçado.

Podia ser brincadeira, pensou o negociador. Ou um teste. Por via das dúvidas, gritou para o apoio:

- Tragam uma mamadeira e leite ninho, reforçado. Agora.

A equipe ficou em dúvida. O negociador confirmou com os olhos. Voltou a atenção para ele. Estava tão perto que quase podia pegar o bebê. Mas ele entrou, a criança começou a chorar. Aumenta o volume de cai-cai balão dentro do quarto.

- Status, Bravo?

- Visual aberto. Ele está dançando e jogando o refém para o ar. O refém sorri até vomitar.

Chega a primeira equipe de tevê. Vem o comandante, de quepe e ar firme.

- Comandante, por favor, explique a situação. Parece que um homem sequestrou um bebê, é isso?

- Aparentemente sim.

- Qual a relação dele com a criança?

- É o pai, aparentemente.

- E a mãe, cadê?

- Foi expulsa da casa, estava aparentemente embriagada.


- Ela saiu da própria casa?

- Ao que consta a casa é dele. Ela é que veio morar com ele quando engravidou, segundo versão dela.

- E o bebê corre risco?

- Positivo. Ele parece estar sob efeito de entorpecentes, então positivo.

O rádio tocou. Alguns números. O comandante sai apressado. Encontra o negociador.

- Ele pediu o reforçado, diz que não aceita esse, e agora quer leite morno, duas fraldas, e uma pizza.

- Onde eu vou achar um leite reforçado agora? Vai ter que ser esse. Não dá para providenciar mais nada. Daqui a pouco ele tá pedindo festa com palhaço.

O negociador avisa. Diz que não vai mais negociar enquanto não houver prova de que o refém está vivo e bem. Recebe uma fralda suja no peito. E uma porta batida.

- Bravo, status?

- Tenho visual. Refém pelado. Ele procura algo na gaveta. Possível arma. É uma meia. Com cara de sapo.

- Bravo, atire na vitrolinha!

O tiro foi certeiro. Ele se assustou. A polícia entrou. Ele não ofereceu resistência. O refém estava bem. Dormindo. De chupeta. O movimento foi um sucesso. O comandante na coletiva. Repórteres afoitos:

- Foi uma jogada de mestre, comandante. O senhor assustou ele, que ficou distraído. De onde veio a ideia, comandante? Foi treinada? É o padrão nesse tipo de operação?

- Não. É que eu não aguentava mais cai-cai balão.

Pensando em Pareto

80% de porra nenhuma vêm de 20% de qualquer coisa.

26 junho 2012

Consta em falta

Não espero que você perceba o modo como ajusto meu caminhar à sua passada, nem como finjo gostar de ser usado. Sua agressividade deixou de ser sexy há muito, e não acho justo perder sem ter mudado. Mas o amor, assim como a vida, nunca foi sobre justiça. O que faz grandes os grandes? Quantos anos ainda tenho para acrescentar um romance tórrido ao meu currículo? Será que seríamos mais felizes ao admitirmos que é isso? Apenas isso?

12 maio 2012

Semiótica dos novos tempos

Uma criança, ao ver um pombo na rua: - Olha lá mãe, o twitter!

27 abril 2012

, a-t-il dit

Para aprender a nadar rápido, você tem que nadar com os tubarões. Só tem dois problemas: você nada sempre sozinho. E as mordidas doem. Muito.

25 março 2012

Lógica lígica

E a vida acontece, indiscriminadamente, vai acontecendo, assim, como se nada estivesse acontecendo.

12 março 2012

#infame

- Tô transando com uma galera massa!,

disse a minhoca no espaguete.

23 janeiro 2012

Por favor

Não acenda a luz
que eu quero ver
a madrugada partir

05 janeiro 2012

Songes et mensonges

Se você ligou para me derrubar, veio tarde.

A vida chegou antes, e é bem melhor nisso.

02 janeiro 2012

Impulso

Algo impele
minha língua
na tua pele

13 dezembro 2011

Inoltre

Duas gêmeas de nove anos, uma extremamente vaidosa, outra esteticamente desencanada.

A mais desleixada ia saindo, de shorts e camiseta, e cabelo desalinhado.

A outra:

- Negativo, você não vai sair assim, pode voltar e se arrumar.

- Não precisa, tá bom assim.

- Precisa sim! Vai que alguém te vê e pensa que sou eu?

30 novembro 2011

Quem te viu

- É fácil esnobar na alta, né?

28 outubro 2011

Davvero

- Ele tinha aquela calma que só as pessoas muito perturbadas têm...

19 setembro 2011

sur ton

Levei o desaforo para casa. Ele dormiu na sala, tomou chá com leite e biscoito de manteiga. Acordou só uma lembrança. No meio da tarde, desaparecido.

06 setembro 2011

Bags and Trane

Escrever só para soltar o dedo, porque a cerveja acabou e estamos juntos nessa vida, porque nunca soube usar direito os porquês, e por que se não escrevermos vai morrer do mesmo jeito.
Nada simples e repentino vai acontecer, não há salvação na escrita, mas tampouco a danação. Escrever porque a vista é bela, porque a cerveja acabou e estamos juntos nesse uísque, e, convenhamos, a noite é muito longa para histórias curtas.

30 agosto 2011

Rouanet

Tenho um projeto para um beijo, esperando patrocínio.

03 agosto 2011

Vida

Há assassinos no fim da estrada. E chaminés, e roupas, e modas e modernos. Há assassinos no fim da estrada. E ladrilhos, triciclos, reinações, amoreiras e tripa de mico, e estilingues e janelas. Há assassinos no fim da estrada. E velocidade e ladeiras e testes e textos, primeiros começos e catedrais. Há assassinos no fim da estrada. E sonhos e sortes, cartas e carências, amigos perdidos e flores no caminho. Há assassinos no meio da estrada. E matéria, motores e mentes, e olhares e óculos escuros, e intenções e veleiros. Há assassinos no fim da estrada. E resignações, amores, sons do mar e providências. Há assassinos no fim da estrada. E aves, peixes e pratos, cinemas e filmes e fôlegos e perdas e respirações exasperadas. Há assassinos no fim da estrada. E natais, fogos de artifício e hospitais, e lágrimas e cantos, e violões e castelos. Há assassinos no fim da estrada. E paus, e pedras e caminhos, e doces e adstringentes, e cores e notas musicais. Há assassinos no fim da estrada. E chás e fantasmas, e troféus, e medos e memórias. Há assassinos no fim da estrada.

19 maio 2011

Tupi or not

Eis que em algum momento da vida todo homem chega ao inefável instante em que ergue a cabeça e olha o nada, acometido da gigantesca dúvida hamletiana, e se pergunta, definitivamente:

- Quarteirão ou big mac?

06 maio 2011

Schadenfreude

Você deixa um elogio e uma mensagem encorajadora no espelho do banheiro, para que ela tenha um ótimo dia, e a primeira coisa que ouve na manhã seguinte é:

- Lindo!, mas você podia ter usado um batom mais barato, porque este custa uma fortuna!

- É, podia.

19 abril 2011

The comeback kid

Mudo de faixas como se mudam opiniões em talk-shows. Freneticamente. A irritação com o trânsito já explodiu em indiferença, e o andamento desequilibra. Começo a prestar atenção a relevâncias, vejo como a trilha sonora muda a cara de um dia de chuva que amanheceu tarde. Desacelero.

Em algum lugar li que neste exato instante sete milhões de pessoas no mundo estão tendo um orgasmo. E eu pensando como é que se calculam coisas deste tipo. Ou porque na história os sapateiros têm fama de anarquistas. Relevâncias.

Daqui a pouco vou ter que dar um tapa na louça acumulada, mas começo a repensar esta expressão. Mastigo um texto antigo, faço um café aguado, para o tranco. Pela primeira vez em meses tenho vontade de escrever. Sim, estamos sozinhos na jornada, mas hemos de contá-la, de cantá-la, la la ra la ra la ra.

Troco pela segunda vez a camisa encharcada de suor, dou piscadas de dez minutos. Faz tempo que o tempo é relativo, e há sete milhões de coisas diferentes que eu poderia estar fazendo em outras dimensões, neste exato instante. O café conseguiu ficar forte e aguado ao mesmo tempo. Enxugo gotas em minha testa, e vou até a varanda soprar sombras e olhar para o céu.

Porque é janeiro, e a chuva não vai deixar este calor impune.

31 março 2011

Procissão

E depois do almoço elas voltavam
todas aves marias
cheias de graça

11 março 2011

Thirty tomorrow

Eu já nem confiava em mim antes disso...

21 janeiro 2011

Entrada Proibida

- A vida é isso, baby, a vida é isso, e você é apenas um garoto aprendendo a dançar no escuro.

30 novembro 2010

L'ancien régime

O padastro da colega delirante, suíço, em sua primeira visita ao Brasil, comenta maravilhado, apontando para um Fusca:

- Regardez! Des anciennes voitures!

(- Olhem! Carros antigos!)

Isso porque lá bas, naseuropa, só ricos tem carros antigos.

E com isso descobri que não somos pobres.

Somos vintage.

Dimentica l'ultimo bacio

Hoje, fazendo a tradicional ronda dos matutinos, descubro que Mario Monicelli se suicidou, aos 95 anos, no hospital em que se tratava de uma doença terminal. Não deixou bilhete, nota, ou discurso.

Ele se jogou da janela do quinto andar.

Nada é fácil de entender.

09 novembro 2010

Sunday after noon

E ao cruzar com as duas meninas que voltavam da escola, ouviu a de laço amarelo dizer espantada para a amiga:

- E eu nunca vou me esquecer que esqueci tudo o que eu ia dizer naquela hora. Tudo!

13 outubro 2010

sem direção, ao Sol

Melhor ser como a areia da praia: tudo o que foi, rocha; tudo o que vem, vento.

30 setembro 2010

Sobre o ego e seus disfarces, ou A quem interessar possa

Quando você for pedir desculpas, apenas peça desculpas.

19 agosto 2010

Never tought you'd kiss back

Diz que seu coração não acelera só um poquinho quando chega um email dela.

só um pouquinho.

28 maio 2010

02:46

- Eu tenho um plano.

Esta é uma das poucas frases que sempre é bom ouvir. Achei vintão no bolso também é uma frase boa, mas nesse caso é preferível dizer a ouvir. O fato é que ela tinha um plano, e eu não. Ponto para ela.

- Eu estudo francês.

Opa, dois pontos. Sempre confio em mulheres que estudam francês. Mais ainda nas que mentem que o fazem.

- Adoro novela.

Eu detesto. Mas ponto para ela. Se interessa por narrativas, sabe identificar o mocinho e o bandido, e vibra com uma nova do Manuel Carlos. Nesse caso perde zerovinteecinco, porque, porra Manuel, no Rio eu também acho que é Leblon ou barbárie, mas há limites.

- Já dormi em uma final de copa do mundo.

Aí eu fiquei na dúvida. Considerei dar mais um ponto, e passar a régua, porque já seria goleada, mas pensei bem. Afinal, tem 3 bilhões de pessoas vendo a mesma coisa, o lance todo dura uma hora e meia, e mais quatro anos, e ela dorme? Tasquei um menos um por precaução, e para manter a idoneidade da avaliação. Porque já tava virando festa. E o negócio ali era científico.

- No sábado eu jogava atari e via caverna do dragão.

Ganhou meio, porque tem a idade certa. Mas criança que passava final de semana enfurnada em casa não aprendeu a namorar. Isso é lei.

- Eu sempre tive mais amigos homens.

Não soube avaliar esta. Mudei rapidamente de assunto, e perguntei se ela gostava de campari.

- Adoro.

Perdeu dois. Porque mentiu escancarado. Ninguém nunca viu ninguém que gosta de campari. Ninguém nunca te chamou, ou vai te chamar, para tomar um campari logo ali. Até o nome é meio nonsense, pensando bem.

- Nunca entendi porque quem tem guarda chuva anda debaixo das marquises.

Ganhou um e meio e minha simpatia eterna. Porque mesmo todo cretino que está com um guarda chuva em um dia de chuva disputa com você o exíguo espaço coberto das marquises? Não sei se fiquei extasiado por perceber que alguém mais se chateava com isso no mundo ou porque sete caipirinhas uma hora te alcançam, mas já não tinha mais a mínima ideia de quanto estava a contagem, o garçom me olhava com cara feia, e a banda estava tocando Belchior. Cheguei mais perto e fechei os olhos.

- Eu tenho medo de estragar esta conversa e esta noite com um beijo solitário.

Ganhou duzentos pontos, perdeu cento e oitenta, e eu me lembro de ter dito "classificou por vinte e dois" antes de desmaiar sorrindo, sem ter tempo de perguntar seu nome.

25 maio 2010

Gato frio, água escaldada

No banco de trás do carro, ao ver o anúncio da atração internacional do Teatro Guaíra, ela comenta:

- E eu que sempre achei que o Johnny Rivers era uma invenção do Roupa Nova...

18 abril 2010

...

Não tenho tempo para reminiscências que terminam em reticências.

08 abril 2010

Fishing on whales

Eles iam se casar em 17 de maio e eu não sei porque raios estava ali beijando a boca dela de olhos abertos.

28 março 2010

Infelizmente para nós

Às quatro e meia da manhã, expulsa do terceiro bar, Lídia caminhava no eixo Monumental, com as mãos no bolso. O céu em abóboda era tão vasto que oprimia. Seu pensamento vagava pela certeza de que a arquitetura é o último refúgio da psicodelia. Sim, Niemeyer antecipou o movimento em uns vinte anos, mas por vezes nossa pressa não nos deixa perceber as coisas que são mais devagares. O psicodélico na música e artes só viria dezessete anos mais tarde, e passou, assim como ficaram os prédios, verticais, desafiando o horizonte seco do planalto.

Deixou dois tostões para o segundo pedinte da noite. A caridade não pode ser um ato de vaidade se é feita para o espelho, concluiu Lídia. Tudo depende de mudar de perspectiva, sem tentar discutir com a crueza da realidade rasteira, irrefutável. Pensar de fora, como construir uma cidade no traço, no macro, do alto.

Morar em uma ilha, em um planeta distante, seria interessante. Desistiu ao lembrar que a rosa do pequeno príncipe não passava do manche imaginário do Saint-Exupéry, em seus vôos solitários sobre o Atlântico. E as pombas nas quais viajava o jovem monarca nada mais eram do que as cartas que levavam o piloto, em suas viagens.

Assim pensou Lídia, enquanto caminhava, com as mãos no bolso. A vida é muito curta para ter remorsos, ela gritou para a superquadra, antes de mudar de eixo, e se perder no Goiais.

13 janeiro 2010

RE: Carta a um companheiro de batalha

Amigo,

Comecemos sim um movimento, mas primeiro combatamos pela elegância. Esta, de tão esquecida e em desuso, serve mais como mote do que nossos velhos paz no mundo e alegria para todos. Desculpe a resposta demorada, estive entretido com meu ser pouco prolífico. Acrescentei a maldade ao seu lema, que pendurei em minha porta, em letras reluzentes: "O mundo é dos espertos e maldosos. Eles que se virem". E não tirei até agora. Também não atendi mais a campainha.

Perceba a ironia: o que nos aproxima é a distância. Distância entre o que buscamos e o que achamos. A volta para os seus, na Província, "para ver menor", não o livrou da solidão, tampouco me livrei dela vindo para a Cidade. Parafraseando Sartre, nunca fomos tão livres quanto no meio termo. Mas ainda buscamos os extremos. Ironia segunda: pela enésima vez tomo uma cerveja e deságuo frustrações usando-te de anteparo. Não sei se seríamos menos sós a dois, mas confesso sentir falta, vez por outra, de seu ouvido silencioso. O tradicional cigarro me acompanha, mas não há sacadas etílicas, apenas uma área de serviço onde, ainda, posso fumar em minha própria casa. Já não vejo mais rostos em prédios, e lamento às musas por não conseguir mais me apaixonar.

Saturno ameaça voltar, mas não sei não, desconfio que ele também vai me abandonar. Pior que mendigo sem cachorro, ando sem ideias, sem vontade de brigar que não para me defender. Se você é confundido com Cristo, pelos cabelos e barba, estou mais para Judas, mas sou malhado não sei porquê. Nada vendi, nada ganhei, a não ser a certeza que saí perdendo. Ok, confesso, dá um certo sabor a batalha, exercitando tudo no auge do vigor físico. Mas isso passa rápido, e depois só sobra o tédio de ter que lutar novamente.

Então, algo maior. Também anseio. Mas não lancemos um manifesto, que algum filho da puta de quinta categoria vai clonar e chamar de seu. Comecemos menores. Sugiro a elegância, algo que anda em falta. O Monge certa vez explicou que a estética é a filosofia do agora, porque seu fim é o espetáculo, irrepetível. Combatamos, pois, pela elegância agora, e um troquinho de irreverência para depois, porque ninguém é de ferro. Sipá com uma pitada de arte, mas não muito, para não estragar.

Pode ser?

Abraços

06 janeiro 2010

Descendo as dunas

Sou o Homem-Vento
Gigante em movimento
maradentro

14 dezembro 2009

Sobre a arte e seus efeitos

Frase de um contemporâneo de Bach:

- Quando Bach toca órgão, até Deus vem à missa.

02 dezembro 2009

Cotidiana

O colorido da praça
dois dedos de cachaça
E aquele dia seria melhor

26 novembro 2009

Anotações

A língua na torre de Babel
A letra contra o branco do papel
horizontes não tão distantes
em memórias de elefante

Frases achadas
em cantos esquecidos
de corações abandonados
muros cercando o vazio
em peitos cicatrizados

Caminhar entre escombros humanos
milhares de rotas sem planos
mentiras clonadas vivas
em ternos italianos

Uma força estranha
arranca das entranhas
um sopro de vida

18 novembro 2009

É uma fresta

Os meus desejos pedestres, seus delírios insanos, nossa culpa consciente. Vontade de fazer o bem, tentando mudar um roteiro que nunca termina. Nosso banquete móvel não é em Paris, mas não deixa de ser uma comemoração. Não nos perderemos na tradução, nem em nenhum dos 19 arrondissements. Talvez fiquemos para a temporada de espetáculos, ou fingiremos nos entediar com a demora para o inverno. Nada de visões que compensem a pobreza, falaremos de jazz, literatura barata, e do próximo bar a se embriagar. Vamos ler o Le Monde em algum café metido, e mentir para os amigos que somos vizinhos do Chico. Fugir nas datas festivas, para voltar só no fim de maio, com a primavera.

29 outubro 2009

Dinâmica de grupo

- Muito bem, doutora Marina. Esta é a entrevista final. Quero ressaltar seu brilhante desempenho até aqui. Foram 2.312 currículos inscritos, quatrocentos candidatos pré-selecionados, oitenta passaram para a segunda fase, e você superou os outros cinco finalistas.

- Muito obrigado. Vindo do presidente da empresa, não posso deixar de ficar lisonjeada com o elogio. Foram três meses de processo seletivo, mas valeu a pena.

- Você mereceu. Agora tenho apenas uma última pergunta:

- Claro.

- Se você fosse uma flor, que flor seria?

Marina ficou em silêncio, pensativa, por alguns segundos. Todos os diretores em volta da mesa a olhavam com extrema ansiedade.

- Uma gérbera!, ela respondeu.

Um lamento generalizado acompanhou o olhar de desapontamento de todos na sala.

O presidente da empresa se levanta, e com o olhar contrariado, estende a mão para Marina:

- Muito obrigado pela entrevista, mas terei que dispensá-la.

Ela, sem entender, pergunta:

- Falei algo errado?

O presidente, sem a olhar diretamente nos olhos, responde:

- Sinto muito. Não posso contratar uma gérbera. Se fosse um crisântemo talvez, uma bromélia, quem sabe... Mas uma gérbera, jamais!

E terminou a entrevista.

06 outubro 2009

Eu ex-machina

Chega uma hora em que o ruído se entranha. Os ombros pesam, e nada mais te emociona. Dinheiro não chega a ser uma solução, mas também não é o problema. São os ossos. Enferrujam.

A rotina aprisiona o alívio, e fora dela você já nem lembra. Os sentimentos viciam, as visões se repetem. Pensar em forma de funções, disso ou daquilo, para chegar ao mesmo resultado.

A liberdade e a escravidão são requintes de abstrações, necessárias, mas com distância. Nada que incomode. Ultrapassar os sinais virou norma, amarelo acelere. Tudo programado.

No intervalo, passava diante de um funeral, todos de preto, sisudos, quando ouviu um comentário sobre o defunto: "Ele não tinha inimigos"...

Instintivamente virou para trás, e sem se dar conta, respondeu:

- Puta cara chato ele devia ser!

Apertou o passo, diante de olhares estarrecidos.

Esse foi seu primeiro pensamento humano.

21 agosto 2009

Piada de caserna

Depois do almoço, Editor passa com o café, rumo ao aquário.

Repórter: - Porra, caiu um avião na marginal, e nós não demos nada?

Editor: - Demos sim, e com destaque, foi abre de ímpar com foto e tudo.

Repórter: - Ah...

Editor: - Você não lê o próprio jornal em que trabalha?

Repórter: - Sou pago para escrever o jornal, não para lê-lo.

10 agosto 2009

Sobre cartografias e oceanos

Sabe, Sabine, o romantismo se perdeu em algum lugar depois dos vinte e dois. O sexo fácil roubou o mistério, e o deleite termina em relações opacas. Não há termos inteiros, apenas meias verdades que mudam, e porque não, ora pois? Nunca poderíamos ter alcançado tudo o que queríamos para os trinta quando com quinze, mas ter chegado até aqui já está de bom tamanho. Sabe, Sabine, a vida não ter vindo com manual vai começar a te preocupar um dia. Mas não se preocupe porque isso passa.

Você começará a apreciar tardes de calor que te lembram praia, mesmo sendo a praia apenas uma distante lembrança há 80 km.
Talvez encontre alguém que saiba reconhecer seu bom gosto para escolher casacos, e se admirar com seus pequenos passos decididos. Sabe, Sabine, nem sempre isso acontece, mas quando chega a idade de perceber, já não faz diferença. Seria apenas uma mudança de estado, e movimento é sempre em relação a uma perspectiva, e não para.

Flui.

15 julho 2009

Noves fora

Você pode chorar, espernear e negar, mas nada vai mudar o fato que se o Michael Jackson usasse havaianas ele nunca teria inventado o moonwalkin'. Até concordo com sua teoria sobre o coentro ser um castigo de deus, e sobre não se poder confiar em bebidas doces com nomes em alemão, mas é impossível negar que há sempre muito chão pela frente para quem está apertado. Fique alarmado toda vez em que aparecer em sua mão um guaraná em vez do seu copo de cerveja. E nunca esqueça esse conselho: Quando começar a fuleiragem, pegue suas roupas, vista-as, e vá embora.

17 junho 2009

Suicídio amoroso por escrito

Meio dia e meia
um email
me divide ao meio
seria o fim o email
e o começo?
Teria o começo email
e fim?

Em meio a tantos meios
eu e minha dúvida
um e meio

25 maio 2009

War

Eu tenho uma manhã e o mundo inteiro hoje, e não vou deixar que uma derrota que não foi minha atrapalhe meus planos de conquistar a Eurásia com apenas dois lances de dados.

20 maio 2009

Equity fund

- Você está perdido, cara?

O inusitado da frase me pegou despreparado. Por instantes eu, que sempre tenho ao menos uma resposta pronta, nada consegui dizer. Pensei na pouca vontade de compartilhar que me assola nestes tempos, ou na fase casa-trabalho em que entrei há pouco. De fato, neste trimestre as ausências tem aparecido com mais força, mas nada que três noites de solidão não façam confundir com mera introspecção. Vinda de um brutamontes, cujo maior feito na vida foi produzir um bíceps maior que o cérebro, a pergunta ganhava contornos de realidade fantástica. Domingo a noite, eu cansado de ficar em casa, passo em uma balada no bairro ao lado, na qual ganhei uma garrafa de uísque e passe livre. Dentro há apenas poucos adolescentes, a maior parte acompanhando os dois grupos de pagode programados para se apresentar. Os grupos tinham mais integrantes que público, eu não tinha nada melhor para fazer, e dois copos do velho Jack para relaxar não cairiam mal para aquele fim de fim de semana. Mas sozinho, ali, naquele horário, entrando em uma balada falida, pego desprevenido por uma pergunta sartriana vinda de um bombado, eu fraquejei. Diante dos intermináveis segundos sem resposta, ele repetiu a pergunta ao me entregar a comanda:

- Você tá perdido cara?

- Agora estou, obrigado!

Mas decidi investir meu tempo aqui.

E afundo, perdido.

13 maio 2009

Ego cego

Em meio a conversa com colegas da academia, jactava-se de ser um onanista de mão cheia.

29 abril 2009

Trimestre da ausência

.

10 março 2009

Viagem ao interior da Suécia

Um país de nove milhões de habitantes, com dois terços de seu território coberto por gelo ou floresta.

Pensava que a maior contribuição para o mundo fosse a banda ABBA. Estava enganado.

Os suecos inventaram o marca-passo, o air bag, o fósforo, o Prêmio Nobel, a dinamite, e as loiras bonitas que não olham para mim. Aposto que de todas, esta é a invenção mais exportada.

PS: Os suecos também inventaram a chave inglesa.

13 fevereiro 2009

Ao longe, com azeite

- (...) Ora, direis, ouvir estrelas? Não, não as ouço! Não, não as vejo! Não aqui, onde elas deveriam abundar, por ofício e obrigação. Não nesta Casa. Talvez esse seja o problema...

Disse isso, e desceu do pinga-fogo da Câmara, ovacionado ao final de seu discurso. Aplausos emocionados até de opositores, há tempos não havia um orador de tamanha verve naquele púlpito. Que desenvoltura! comentavam os deputados naquela sessão atipicamente lotada devido à votação histórica da que ficou conhecida por Lei da Educação.

Um dos mais jovens deputados a se eleger por um partido independente em toda a história, foi o autor do projeto de lei que pretendia federalizar a educação. Mais conhecido pelo apelido de Doutor, devido ao grau precocemente conquistado na carreira universitária, tornando-se professor da mais reputada universidade do país. Seu passado ilibado e sua plataforma simples conquistaram o eleitorado letrado. Bradava, sempre que possível, seu slogan de campanha:

- Educação é uma questão de Estado, não de mercado.

Vestia-se sempre de preto, era taciturno, cabelos curtos, admirado pela correção e honra, e tinha a fama de incorruptível. Já ocupara alguns cargos públicos, tendo se destacado em todos, e agora alçava voos mais altos.

Era conhecido por sua obra jurídica, inovadora e rigorosa, escrita com fluência e estilo. Um cinismo rápido e ironias eruditas perpassavam seu texto, que era referência até no exterior. Era versado em filosofia e latim, citava Virgílio de cabeça, com propriedade.

Mas em uma praia diletante ele já planejou a revolução. Os longos cabelos faziam sucesso com as meninas mais intelectuais, e a pose descolada ajudava muito. Usava conga nacional, enchia a cara com vinho barato. Chegou a comprar uma arma para a revolução vindoura, mas a trocou por uma coleção rara de discos do America. Borracho, fazia lista dos primeiros burgueses que seriam fuzilados, sempre iniciando com seu professor de matemática da sexta série. A lista terminava invariavelmente com o técnico da seleção, e assim foi por gerações e gerações de listas.

Naquele tempo ele não era jurisconsulto, tinha uma barba e estilo escancaradamente copiando Che. E escrevia poesias. Sim, ele era. Magro, um quê de Trapo, andava com um caderno pautado e uma bic roída nas pontas. Nos bares dos campi, subia nas mesas e gritava que en la lucha de classes todas las armas son buenas: Piedras, Noches, Poemas.

Só por duas vezes alguém riu, identificando Leminski. Estava acostumado a falar para poucos. Talvez uns dois deputados ou mais identificaram Bilac. Essa era sua sina.

O tempo é o carrasco do sonho, o senhor do nosso inverno. Ele envelheceu, enveredou por outros caminhos. Raspou o cabelo, comprou terno, aderiu.

Ele, o mesmo que já disse que o homem é uma diarréia de deus. Ele, o mesmo que buscava o destino sob sete véus. Ele, o mesmo que conquistou 17 meninas diferentes dedicando a mesma poesia, “feita na hora”: - As palavras só me dizem você...

Trancado no quarto, ele maquinava. A labuta, a mais vã, gerava frutos. Durante anos ele executou seu plano.

Naquela noite, a polícia jamais imaginou encontrar, por debaixo daquele capuz, o deputado Doutor. Spray na mão, a moto ligada. Quatro e meia da manhã. O deputado terminava de assinar a pichação. Finalmente haviam encontrado o meliante que durante anos pichou poesias anônimas em propriedades privadas.

A Função Social do Espaço Urbano. Esse foi o nome da sua tese. Essa foi sua defesa. Escrita de próprio punho. Três editoras especializadas ofereceram rios de dinheiro para publicá-la. Ele aceitou a maior oferta, e destinou todo o dinheiro à Defensoria Pública. Não precisava do dinheiro. Nem chegou a ficar um dia na cadeia. Dizem que foi só de pirraça, para citar para o delegado, durante duas horas e meia, todas as leis que foram infringidas em sua prisão, a jurisprudência a seu favor, e terminar a explanação fazendo um apanhado da evolução de toda a filosofia do direito, dos pré-socráticos até hoje.

A prisão lhe rendeu uma notoriedade nacional instantânea, que lhe custou a cadeira na academia. Suscitou questionamentos. Afinal, ele tinha o direito de escrever no muro dos outros? Se era poesia, valia? Não seria apropriação indébita? Vandalismo? Romance? Porquê não publicava um livro? Porque ocupar e produzir no espaço alheio?

A carreira política foi um misto de vocação e alternativa. Agora era tarde. Seu projeto de lei seria votado, ele salvaria o futuro do país, seu bem mais precioso. A educação. Ele seria lembrado para todo o sempre.

Pouco antes do início da sessão histórica, ele foi informado de que o projeto não passaria. Disseram que era bom, bem fundamentado na teoria, e economicamente viável, impecável. Mas não havia interesse político.

Ao subir no púlpito, ele encarou o plenário com raiva, e começou seu discurso disparando. Uma atrás de outra, as palavras se encaixavam perfeitamente. Cada frase demolia um mito, e em nenhum momento ele deixou de criticar profundamente todos os seus pares. O discurso foi pura prosa poética. Ele pichou na história a mais dura crítica jamais feita naquele recinto. Teria ele o direito de, mais uma vez, pichar a propriedade alheia com sua poesia?

Um novo Lacerda? Um orador de esquerda? O iconoclasta necessário? O conformista diletante? Avaro? Santo? não se sabe ao certo. A resposta jamais foi dada. Desistiu da carreira política, e sumiu do mapa.

Dizem que passou a pichar poesias em outras propriedades, em novos meios.

Alguém certa vez o encontrou na rua, e perguntou por onde ele andava.

Com o olhar vítreo no horizonte, ele respondeu:

- Ao longe, com azeite.

27 janeiro 2009

Nunca diga eu te amo 4

Porque você não tem o direito de ser tão importante assim na minha vida.

19 janeiro 2009

Resposta à PsicoNada

Não canto para você aplaudir
Canto para existir
no meu canto

07 janeiro 2009

Visionários

Ao cair da tarde a praia já estava completamente lotada, abarrotada de fiéis de todos os tipos, tamanhos e cores aguardando em profunda apreensão. Apenas o barulho esparso e constante das ondas quebrando mansas rompia o silêncio pleno da paisagem. O momento mais aguardado enfim começa, e o locutor anuncia no microfone que é chegada a hora do sermão do Grande Profeta. Ao mesmo tempo em que o sol se põe, um senhor esquálido, trajando uma túnica tão branca quanto sua longa barba e cabelo, entra no palco improvisado no topo da montanha, defronte a uma plantação de limoeiros. O Profeta anda devagar, com o auxílio de seu cajado, e se dirige ao microfone. Encara a multidão, aperta os olhos contra o vento na direção do horizonte. Aponta o oceano, e grita:

- Um dia o mar vai virar sertão...

(a multidão em transe repete em coro as sábias palavas do mestre)

- Um dia o mar vai secar, e toda essa imensidão azul vai virar um deserto de sal!

(a multidão se emociona, e reflete sobre o que diz o guru)

- Serão quilômetros e mais quilômetros de sal, montanhas e cordilheiras de sal, vales e abismos de sal, milhões e milhões de toneladas de sal, sal por todos os lados. E quando esse dia chegar....

A multidão delira, e espera longos minutos por mais palavras do Profeta, que irrompe:

- ... a gente vai ter que ter tequila pra caralho!

26 dezembro 2008

Olvidado

Ontem eu queria ser hoje um pouco menos.

03 dezembro 2008

Boy's night out

O quarto chopp desceu aliviando os pensamentos carregados de trabalho daquela quinta-feira de calor, a conversa animava sem compromisso, quando concluí:

- ...e só o que quero agora é uma mina gata e de bem com a vida.

Ao mesmo tempo, duas amigas, longe de suas respectivas namoradas, contestam:

- E não é isso que todo mundo quer?!

(risos generalizados)

- É...

Fashonably late 2

E dois mil e trezentos anos depois as sandálias romanas voltam à moda.

18 novembro 2008

Pièce de résistence

Se foi necessária a força para derrubar a idéia, a força perdeu.

Toda derrota da idéia contra a força é, no fundo, uma vitória.

03 novembro 2008

No sentido de existir

Se você condiciona sua vida a não ter esse cara, o que está te faltando é vida, e não o cara.

17 outubro 2008

Ah, é?

Informações (in)úteis que me fizeram pensar um pouco ultimamente:

A moda de usar roupas maiores do que o corpo, bastante popular entre os adolescentes da periferia, nasceu no subúrbio de Los Angeles. Os meninos mais novos herdavam as roupas de seus irmãos mais velhos e as usavam no mesmo instante, o que acabava por mostrar parte da cueca, e fazia camisas de times de beisebol parecerem vestidos. Pela lógica, quanto maior a roupa, maior o irmão mais velho, sendo este um ativo valioso entre a gurizada da quebrada.

A primeira reação de uma vítima de estupro é, compreensivelmente, tomar um longo banho, atitude que os legistas, compreensivelmente, lamentam muito, pois elimina quase toda evidência genética do crime.

A palavra máfia inicialmente designava um bairro de Palermo, capital da Sicília.

A idade média em que um italiano sai da casa da mãe é 35 anos, já os brasileiros saem aos vinte e muitos anos, e os finlandeses acho que perto dos doze.

O primeiro Campeonato Brasileiro de Tiradores de Chopp foi vencido por Gil Bambam, em algum mês obscuro de 2008.

09 outubro 2008

B.S.B.

Quando ela descobriu foi uma decepção. Um encontro fortuito, profissional, e um email. Matou um universo e abriu um mar de curiosidade. Quem seria ele, afinal?

Aroldo Jorge Guilherme era platinado, com jeito de galã francês de meia idade. Usava cachecóis e sobretudo, e estava no auge de sua diversificada carreira. Coadjuvava com certo destaque em uma novela popular, dirigia uma peça mediana, e estava escrevendo o roteiro de seu longa. Ainda colhia o sucesso do seu último romance, Onde os poetas nunca morrem, lançado na última primavera. Era reconhecido na rua, tinha fãs, principalmente as mais novas. Mas o livro lhe dera um verniz que agora chamava a atenção das mulheres mais velhas, e até elogios dos críticos.

Por trás das grossas armações dos óculos quadrados moderninhos, ela levantou seu olhar inteligente. A carreira na editora, após passagens por órgãos públicos e multinacionais, estava engrenando. Pensava que estava quase realizada profissionalmente quando a porta de sua sala abriu. Era ele. Aroldo Jorge Guilherme.

Sua paixão secreta. Já o achava bonito desde a última novela das seis, quando ele interpretou um jornalista descolado, que pegava onda e tocava saxofone. Foi duas vezes ver a peça que ele dirigia. Sonhos platônicos. Mas, depois do primeiro livro, Corações do infinito, os sentimentos afloraram. Além de tudo era culto, sensível, brilhante, ela pensou. Almas gêmeas. E agora ele ali, entrando na sua sala.

Trazia um rascunho de seu terceiro livro, com título provisório de Visões d'alvorada. Vestia uma velha bermuda cinza, tênis surrado sem meia, estava despenteado e com os olhos semi-cerrados. Cantou a recepcionista, se jogou na cadeira, sentou de pernas bem abertas, e perguntou mais uma vez seu nome. Ela não acreditava. Ele estava ali.

A manhã seguinte foi silenciosa, lembrando o caloroso aperto de mão que ele lhe dera na despedida, o olhar de sedutor barato com que ele se despediu. Havia algo estranho, mas ela não sabia bem o que era. O artista portava-se como um adolescente tardio. Não parecia ser a mesma pessoa delicada que escrevia livros lindos, cheios de poesia. Tocou o telefone. Era ele. Convidando-a para sair. Taquicardia. Até as oito então.

Foram para um bar movimentado, ele gostava de ser reconhecido, adorava autografar seu nome em qualquer oportunidade que aparecia. Pediu bebidas doces com nomes exóticos, comeu muito e não deixou de olhar nenhuma das mulheres bonitas que passavam ao lado. No caminho para casa, dois beijos e uma tentativa de subir. Ela disse que o apartamento estava uma bagunça, ele quis entrar na bagunça dela, mas amanhã ela teria uma reunião cedíssimo, teria que ficar para uma próxima. Mentira. Não havia reunião. Só uma sensação estranha.

Quatro dias depois ela terminou de ler o terceiro livro. Maravilhoso. Surpreendente. Tocante. Ela enviou-lhe um email confirmando a publicação para o fim do ano. Convidou-o para um outro jantar. Ele agradeceu a publicação e o convite, mas declinou o último. Disse estar envolvido no momento, mas que "sempre haverão oportunidades". Ali seu mundo ruiu e começou novamente. Esse foi o sinal. Ali o mistério. Ele não era o autor dos livros. O verbo haver, no sentido de existir, não flexiona no plural. O autor dos livros jamais erraria isso.

A dúvida se agigantou com os dias, e a certeza da incerteza a enlouquecia. Releu os livros. Investigou a vida de Aroldo. Duvidou do embuste. Até que veio a luz. O revisor. Só podia ser ele. Voou para os livros e procurou ofegante nos créditos. Só constava o nome do revisor da editora. Mas os livros já chegavam corrigidos, sem nenhum erro. Pensou duas coisas. Uma: o revisor da editora estava ganhando sem trabalhar. Duas: teria que descobrir quem escrevia os livros para Aroldo Jorge Guilherme. Mas como? Não poderia ligar para ele e perguntar diretamente. Perderia o cliente.

O email. Aroldo lhe encaminhou o primeiro livro por email. O autor deveria ter mandado a mensagem original. A mão tremia no mouse, a testa suava, e ela não achava o maldito email. Teria apagado? Não. Aqui estava. Desceu a tela angustiada. Achou somente as siglas B.S.B., e um texto escrito em português castiço, denotativo, sem erros. Sem sombra de dúvidas ele era o autor. E ela estava apaixonada por um ghost writer.

29 setembro 2008

Recompondo

Abre o olho. Segunda-feira. Porra, como eu cheguei aqui? Onde é que eu estou? Eu lembro de ter falado para o flautista que ele era covarde, se escondia na hora de aparecer. 7:24 da manhã. Eu tô numa água, com certeza. Eu nunca acordaria nesse horário. O negócio foi feio. Deixei metade da cerveja na garrafa. Discuti Lou Reed. A calma com que ele fala “take a walk on the wild side”. Essa calma é de quem conhece. Acho que a gente já conhece um pouco. Cai na noite, mas sem se ferrar. A calma de quem já se ferrou. Hoje, só curte. Sim, vamos pirar, mas presta atenção na voz dele. Ele não se afoba. Teorias sobre a idade de conquistar o mundo. “Agora, se a gente se dana, é querendo, é sabendo, só pela diversão”. Conselhos vários para um futuro filho: respeite o sete cordas e o bumbão. Não sem querer eram os dois únicos com cabelo branco na roda. Assumir o bumbão tem que ter sabedoria, mas, principalmente, malandragem. E o sete cordas é muita responsa para qualquer muleque. É como mulher na mão de menino. Sobra. E agora, o que é que eu vou fazer às sete horas da manhã de uma segunda? A dor de cabeça passa com água e coca-cola, mas a geladeira só tem leite batido e chocolate de ontem. Quem é que estacionou o carro, meu deus?

11 setembro 2008

Viagem ao interior do Brasil 5 - Lua encoberta sobre o Rio Negro

O manauara é o mineiro do Norte.

28 agosto 2008

Hertz and hearts

Um dia ele falante, expansivo, comunicativo, ficou quieto.

Todos ouviram o silêncio.

Ninguém ouvia o grito.

12 agosto 2008

Arquivos Cheese

- A verdade está lá fora, mas aqui dentro tá tão quentinho...

08 agosto 2008

Reflexo feminino incontrolável

E em meio aquele caos emocional, financeiro e familiar ela tinha a absoluta certeza que se fizesse uma lipoaspiração naquele final de semana tudo estaria resolvido.

04 agosto 2008

O homem que copiava

Recebi o maior elogio de minha curta carreira literária. Mas já explico.

Primeiro quero agradecer outros elogios legais, da LuciAne, que achou linda minha poesia chamada Pósliminares, e que me achou "intenso demais nas palavras", ao ler minha poesia chamada Luto.

Mas não adianta tentar encontrar estes elogios nos comentários das respectivas poesias neste blogue, porque eles foram feitos no site Recanto das letras, espaço dedicado a autores que não tem onde publicar seus textos.

O problema é que os elogios de LuciAne foram feitos para a poesia Intermitente presença e Luto, do escritor profissional Marcos Beccari.

Isso mesmo! Pela primeira vez em minha vida fui escancaradamente plagiado!

De início fiquei estupefato. Quem seria o sujeito medíocre que plagiaria meus pobres textos? Com tanta gente boa e de renome escrevendo por aí, porque escolher justamente meus textos para plagiar? Será que ele não esqueceu, sem querer, de citar a fonte?

A linda Lady in Red me avisou que, ao procurar modelos de fotologs se deparou com o endereço do indivíduo, e reconheceu um de "meus" textos (doravante colocarei os pronomes pessoais caracterizados, para facilitar a localização do leitor).

Tomei a liberdade de pegar emprestado uma parte de um dos últimos textos deste sujeito, que se descreve no site como escritor profissional:

Não retornável

Na fonte da calçada da rua visconde do rio branco a água brotava discretamente por sob o concreto, fazendo pequenas bolhas entre meus dedos do pé, calados dentro da meia, descalçados pelo furto. No colorir do amanhecer, ainda longe do barulho da cidade, meus pensamentos boiavam acompanhando o brotar daquela água que insistia em não estagnar, nunca, nem quando confrontada com as pedras jogadas em cima, para matar o tempo. Na simbologia elementar alquímica-meta-quântica-filosófica-hermenêutica a água representa a emoção, o sentimento. A fonte encerra, ao mesmo tempo, um sentimento parado e em movimento, uma dualidade que não poderia ser mais perfeita.
(...)

Para aqueles que não reconheceram, favor descer os olhos para Crônicas do Coração da Terra, dois textos abaixo deste aqui.

Impressionante, né? Qualquer semelhança não é mera coincidência, e ele ainda se deu o trabalho de modificar algumas palavras. Discordo do bom gosto das mudanças, mas talvez ele ache que esteja corrigindo alguma coisa que errei, ou somente adaptando a obra a seu gosto.

O interessante foi ver que o nosso colega, escritor profissional, nunca deixou nos comentários nem um alô, um "admiro seus textos", ou quem sabe um "vou te copiar mas não conta pra ninguém, tá?". Juro que manteria em segredo. Mas ele nunca se revelou, nem deixou sinal neste meu espaço.

Se ao menos ele tivesse feito como escrevi há algum tempo (1 x 1). Não seria original, mas seria mais divertido.

Entrei em sua página no site, e tive o trabalho árduo de ler (na verdade passar os olhos) suas(?) 169 crônicas, 155 pensamentos, 18 prosas poéticas e 8 poesias.

Descobri que sou responsável por 7 crônicas, 2 poesias e 10 pensamentos do Marcos. Não emplaquei nenhuma na prosa poética.

Também descobri que ele copiou meus colegas do Diferença Nenhuma, Caos Portátil e do Cada Qual, e estes são só os que percebi. (Insone, não te disse que você não era desinteressante. E você, Poeta, podemos finalmente dirimir nossas dúvidas de quem é melhor na prosa. Temos um referencial independente: ganha quem foi mais plagiado)

Mas a contagem é difícil, porque ele(?) cola frases de textos dos outros, emenda tudo, faz uma miscelânea estranha. Teremos que definir melhor os critérios, se vale só uma frase, meia frase, citação, etc.

Com o tempo comecei a advinhar apenas lendo os títulos quais textos eram "meus". Primeiro porque conheço bem "minhas" temáticas. Segundo porque, uma coisa é certa: o indivíduo tem bom gosto. Escolhe quase sempre dentre meus melhores textos.

E ele definitivamente tem senso de humor. Logo abaixo de cada um dos textos há a seguinte mensagem, que também é exibida quando se copia qualquer coisa da página:

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, criar obras derivadas, desde que seja dado crédito ao autor original (cite o nome do autor e o link para a obra original) e as obras derivadas sejam compartilhadas pela mesma licença. Você não pode fazer uso comercial desta obra.


Ok, mesmo considerando que não poderei fazer uso comercial de "minhas" poesias e textos, (também estou rindo agora), percebam que, conforme grifei, ele está descumprindo as regras da licença sob a qual ele tomou a liberdade de registrar "meus" (oops) digo, nossos textos.

Vocês ainda acham que ele não tem senso de humor? Então leiam o que ele escreveu em um de seus(?) textos, chamado Abnegação:

Tenho escrito muito ultimamente, mas sinto que não consigo estabelecer um padrão textual conveniente. Acho que vou começar a escrever sem ler... mas aí vou parecer o Diogo Mainardi escrevendo. Então vou pensar bastante antes de escrever. Ah não, assim vou parecer o Max Gehringer escrevendo... Então vou pensar um pouco, ler só metade e fazer umas sacadas legais... Mas aí vai ficar igual ao Dan Brown. Merda. Então vou começar a escrever o puro lixo que escrevo normalmente e vai sair igual ao Marcos Beccari. Obrigado, obrigado.

Para não ser injusto, cito aqui a fonte:
http://recantodasletras.uol.com.br/pensamentos/596202

O melhor de tudo é que ele realmente inova, ao inventar o meta-plágio. É o plágio dentro do plágio. Em um de "meus", digo, nossos textos, ele muda a cidade em que se passa a narrativa, acrescenta, como de praxe, frases rasas e de mal gosto, inserindo ainda uma citação a outro texto "meu". Uau! Acho que, além de conhecer muito bem minha obra (que emoção usar este termo!), tem por mim uma espécie de deferência que chega a me encabular.

Algo que me espanta é que os amigos-leitores dele (oops) nossos, não tenham percebido as diferenças entre os textos dele(?) e "meus" ou nossos, tanto faz, como ele preferir. Uma análise um pouco mais atenta notaria as óbvias diferenças de escrita e temas.

Ele, quando ele(?), é brutalmente depressivo, misantropo, mórbido, monotemático, escatológico, falsamente lírico, além de utilizar fartamente palavrões, com destaque para Merda, seu favorito, presente em três de cada cinco de seus(?) textos. Há, ali e acolá, algumas frases boas ou uma e outra idéia mais interessante. Mas como não fiquei "googando" todos os textos para saber se são efetivamente dele(?), desisti de tentar identificar algo como um estilo, portanto, justiça seja feita, minha análise é parcial.

Tenho medo, e me desespero só de pensar que não consigam diferenciar minha escrita da dele(?).

Será que nenhum dos meus (esse é sem aspas mesmo) poucos leitores contumazes perceberia se um dia eu iniciasse um texto assim:

Graças à raça humana, o mundo foi abençoado com o papel higiênico

ou

"Viva o momento". Este é o meu lema.

ou ainda

O que leva uma pessoa a guardar o próprio ranho dentro de si mesmo? Apego afetivo ao muco? Geralmente é quem não toma coca-cola. Afinal, não sente a necessidade de liberar gases com freqüência e se acha super educado e limpinho por isso.


Frases retiradas, respectivamente, do texto "Aroma de Merda", e de "Sinal Vermelho", e "Introspecção", tendo todos os nomes hiperlinks para os originais(?)....rs....

O que mais me irrita não é o fato de pensar que talvez a internet dilua tanto "meus" textos que eles acabem passando para a eternidade como textos do Marcos Beccari, escritor profissional. Não tenho essa necessidade tão grande de projetar meu nome, tanto que neste meu blogue (este meu mesmo, este que você está lendo agora) eu jamais citei nomes próprios ou me identifiquei como qualquer outra coisa que não fosse o vizionario. Já o sujeito coloca o nome em negrito até em assinatura de portaria.

Mas o que me tira do sério é saber que estes textos poderão ser repassados com as alterações e inserções dele(?)! Desfigurados, dilacerados com aqueles comentários ridículos, estuprados com frases baixas e sem classe. Aquelas montagens toscas misturando, inadvertidamente, um texto com outro.

Como bom conhecedor da minha obra que é, ele(?) viu que no texto 1 x 1 (com link acima), "eu" disse expressamente que "ninguém suporta um texto ruim que não seja seu". Mas ele deliberadamente ignorou isso. Ou não, porque os textos, do jeito que ficam, melhor serem dele mesmo, para não queimar meu filme.

Eu sei que a obra transcende o artista, e que este não tem voz ativa no destino daquela. Até achei bonito essa coisa de reinterpretarem minhas idéias, fazerem colagens delas. Isso em termos artísticos se chama apropriação, e faz parte do processo de fruição estética. A pessoa se identifica com a obra, e agrega elementos que a trazem para o seu cotidiano.

Mas cita a fonte, caramba!

Porque nós sabemos, digo, eu sei o quanto me custa ser original. O mínimo de decência que se pode esperar é o devido crédito pela criação.

Enfim, de qualquer modo, preferi encarar toda a situação como o maior elogio literário que já recebi. Ninguém copia algo e coloca seu nome em cima se não gosta do que copiou. Ele gosta tanto do que escrevo que finge que é dele, e isso eu chamo de admiração. (na minha terra isso tem outro nome também, mas deixa para lá vai).

Obrigado pelo elogio, Marcos.

Vê se aparece mais neste blogue, se identifique, e sugira temas para nossos próximos textos.

01 agosto 2008

Ambígua

Penso em você ouvindo esta música, mesmo antes de conhecê-la.

23 julho 2008

Crônicas do Coração da Terra

Na fonte cordiforme a água brotava discretamente por sob o solo, fazendo pequenas bolhas entre meus dedos do pé, semi-enterrados na areia cálida. Na clareira, longe do barulho da cidade, meus pensamentos bóiam acompanhando a folha de nogueira que insistia em não afundar, nunca, nem quando confrontada com as pedrinhas jogadas em cima, para matar o tempo. Na simbologia elementar alquímica-meta-física-astrológica-esotérica a água representa a emoção, o sentimento. A fonte encerra, ao mesmo tempo, um sentimento parado e em movimento, uma dualidade que não poderia ser mais perfeita.

Ali, na clareira, eu estava parado em movimento. Gerando para ser represado, brotando para dissipar.

Emoções paradas não deixam de gerar. Durante muito tempo também represei, esticando até o infinito o limite tênue entre o controle e o transbordar. Durante muito tempo estive como a fonte, escondido em uma clareira perto de tudo, mas longe do mundo. Brotei das entranhas, quieto e independente, impassível mas permeável, recolhido e universal. Parte do ciclo. Mas o ciclo se parte um dia, e por isso, sozinho, eu pedia, em reza e rima: qualquer desanteção, faça não.

15 julho 2008

House

- A pior nora que existe é a noradrenalina, porque ela dá uma tentação na cabeça da gente...

09 julho 2008

Previsão do tempo

Tenho uma frente fria guardada no peito. Periga chover.

02 julho 2008

Sur la finesse

A capacidade de demonstrar elegância só é efetivamente testada em situações adversas, nas quais os falsos se entregam, e só os nobres conseguem ser realmente elegantes.

No dia 16 de março de 1914, madame Henriette Caillaux se dirigiu à redação do jornal Le Figaro, em Paris, para conversar com o diretor do periódico, monsieur Gaston Calmette. Ele havia publicado no jornal algumas cartas com severas acusações difamando o ministro francês das Finanças, Joseph Caillaux, marido de Henriette, e intencionava continuar a publicação.

No encontro, após algumas breves palavras, Henriette sacou um revólver e meteu quatro balaços no peito do jornalista.

Em pouco tempo o escritório de Calmette era invadido por funcionários do jornal, que tentaram acudir o diretor baleado. Este, antes de morrer segundos depois, teria murmurado:

- Peço que me desculpem, não me encontro bem.

Quando os funcionários foram deter Henriette, ela exclamou:

- Não me toquem, eu sou uma dama!


Em tempo: Henriette foi absolvida em um julgamento controverso, no qual seu advogado alegou que o crime não foi premeditado, mas sim fruto de um "reflexo feminino incontrolável". Algum tempo depois, Henriette veio com o marido dar um tempo no Brasil.

23 junho 2008

Fatti su misura

Você não entende o significado da palavra gentleman, tampouco reconheceria um ainda que ele não gritasse em sua frente.

17 junho 2008

Graal

Descobri teu segredo, ó Poeta!
É o silêncio da cama da noite
que em ti reverbera

07 junho 2008

Cumpleaños

Rá-tim-bum, Juninho, Juninho!
- E quantas velinhas tem aqui?
- Contando com a vovó, seis!
- Não filho, é velinhas, de velas, no bolo.
- Ah...

30 maio 2008

Nunca diga eu te amo 3

Porque meu lado esquerdo do peito foi loteado, e você ficou com a vista para o mar.

16 maio 2008

Para apontar um dedo

O julgamento moral é o mais complicado que existe. Qual a régua da medida do caráter dos outros? Se tem uma coisa que gosto em escândalos midiáticos é que eles forçam o público a manter a hipocrisia, mormente com o "quem diria, hein?" ou o clássico "Até tu?".

Fatos e dados: Tem que ter muita moral para julgar quem quer que seja. Não conheço ninguém que tenha.

As palavras ficam, ferem e fecham, quando mal ditas. Prefiro as não ditas. Na dúvida, a balança da alma pende para o lado da mágoa.

Para apontar um dedo, há sempre três apontado para você.

E isso diz tudo.

05 maio 2008

Último ano de nossos vinte e poucos

A grande amiga mme. Rocamadour fez vinte e tralalá ontem. Lembrei hoje, no mesmo dia em que encontrei quatro fios de cabelos brancos (ainda acho que são apenas muito loiros) em minha cabeça.

Lembrei de um pacote de bolachas que levei para ela quando esteve doente (na época havia o slogan "Biscoito São Luis, coisa de amigo!"), da fita K7 do Jovanotti que ganhei de presente certa vez (ainda a tenho em algum lugar), e de como não pensávamos em absolutamente nada naquelas semanas de folga do cursinho.

Dez anos se passaram, estou pensando em comprar uma moto, ela casou e vai muito bem, obrigado, mudei de cidade, de silhueta e de perspectiva, ela preferiu ser feliz a ter razão, eu começo a repensar esta escolha, ela é meio argentina e quer fazer cinema, eu sou meio italiano e ainda não consegui morar em Paris.

No último ano de nossos vinte e poucos, poucos vinte para nossos anos últimos.

25 abril 2008

Águas passadas moem moinho

Dezessete meses depois ele fazia o mesmo caminho conhecido. Após treze horas de avião, seis de ônibus, dois metrôs e um táxi, ele virava a última das nove quadras do loteamento.

Tocou mais uma vez a decorada campainha, lembrando da primeira vez.

Ela abriu a porta, e a boca de espanto, ao vê-lo ali, maltrapilho, mal dormido, um pouco bêbado e com a cara limpa.

Tentou falar algo quando ele, olhando nos olhos, exclamou:

- Eu só vim aqui pra dizer que me importo!

E saiu caminhando lentamente.

16 abril 2008

Reclames

Alguma coisa se perdeu no intervalo. Alguma coisa sempre se perde no intervalo. O primeiro toque, o primeiro passo, a cena inicial, o desfecho de tudo. A resposta certa sempre vem depois, o fim do salário sempre vem antes, mulheres e crianças primeiro, salve-se o que puder. Entre dois instantes imprevisíveis, cortes e planos longos, pausa no ponto de fuga a falta de perspectiva. A vida vista do outro lado da tela abre uma janela ao porvir, esse danado irrascível. E por um lapso de segundo frenético, a possibilidade desacontece, desacontecendo. Todos os castelos de areia, sólidos em sua contemplitude, se desmancham na primeira marola. Os exércitos de probabilidades convocadas já não entram em campo, e a indecisão vence o medo ou perde a batalha. Alguma coisa sempre se perderá no intervalo.

08 abril 2008

Piano bar

E Luiza era tocada ao piano, enquanto ele a esperava no bar do hotel em Belo Horizonte. Ela não viria, ele sabia, mas aquela, ah, aquela música. O barulho do gelo batendo no cristal do uísque estava no tom, ele colocou aquela roupa casual descolada pensando em ser alguém que não era, esperando alguém que não viria. Pediu um cigarro emprestado e depois se arrependeu, fingiu que mandava mensagens no celular, começou a escrever um roteiro em um guardanapo.

Foi embora duas horas depois, ao som de Carinhoso.

03 abril 2008

Sobre não lidar bem com críticas

Entre tipos e arquétipos é necessário fazer uma escolha, ainda que esta seja não escolher nada. Omissão também é ação. Usa-se diferentes personas em diferentes situações, e colocar um pouco de tinta colorida aleatoriamente sobre a máscara, dizendo que inovou e é distinto, é só poeira retórica de auto-afirmação.

O velho clichê misantropo reinventado pode até cair bem para o concreto cinza de São Paulo, mas isso também é clichê. O underground, assim como a arte, caminha de mãos dadas com o capital, ainda que ambos o desperezem. Meias coloridas, roupas nada monocromáticas compradas em brechós perdidos, e muita pose para parecer o grande-intelectual-andrógino-com-óculos-quadrados-moderninhos podem fazer sucesso na baixa Augusta, onde todos são iguais e citam livros e autores que não leram ou não entenderam, só porque ninguém os conhece.

Mas o fato é que sua modernidade não te livra de estar tão sozinha e perdida quanto qualquer nessa cidade, Clarice Linspector é um saco, e eu prefiro a breguice elegante das curtibanas à sua pose oca de underground urbana.

19 março 2008

Generalizações Genéricas

Se uma mulher te chama de "Cachorro" ou "Cafajeste", você se deu bem. É público e notório que mulheres não resistem a ambos os tipos (são dois?), por mais que neguem ou finjam preferir aquele banana chicletão.

Se ela te chama de "Fofo", você se deu mal. Elas reservam este adjetivo para aqueles caras legais com quem elas vão conversar quando um cafajeste e/ou cachorro faz algo previsível como: trair, dar um pé-na-bunda, trocar por futebol, mentir que vai jogar futebol, sair sem dar satisfação, viajar e não avisar, não ligar no outro dia, pegar uma "amiga" em comum, etc etc etc. O "Fofo" é o idiota útil que tem bons conselhos, mas nenhum poder de sedução.

Lembro de uma cena clássica, em um dos filmes dos X-Men, na qual a Jean Grey está conversando com o rosto a um palmo do Wolverine, e declara: "As mulheres flertam com o perigo, mas casam com os bons moços". (Women flert with danger, but they marry the good guys)

Acho que é por isso que o casamento está falindo.

05 março 2008

Casa Nova

- Eu, você, champanhe e morangos?
- Como?
- Eu, você, champanhe e morangos?
- Como assim, eu nem te conheço!
- Então, mais um bom motivo para sairmos juntos. Na minha ou na sua?
- Vê se te enxerga, mané! Eu aqui, na fila do banco, e ainda tenho que ouvir isso?
- Podemos ouvir aquele do Roberto, lá em casa.
- Você está louco!
- Ok, na sua então. Mas eu só tenho em vinil.
- Escuta aqui, em primeiro lugar, eu nunca te vi mais gordo. Em segundo lugar, você não faz meu tipo. E por último, eu odeio homens de bigode!
- Eu também.
- Eu também o quê?
- Também odeio homens de bigode. Temos algo em comum.
- Que absurdo! Isso é algum tipo de pegadinha?
- Não. Mas pode ser. Quer?
- Que absurdo! Você não tem vergonha?
- Não enquanto eu estiver de cuecas. Depois é outra história.
- Eu mereço! Pegar fila de banco na sexta-feira e ainda ser cantada por um baixinho de bigode. Pode?
- Não, deve. Quer?
- Olha, meu senhor, o senhor me respeite, que eu sou moça muito direita...
- Nisso a gente dá um jeito.
- Vem cá, alguém já te disse que você não vale nada?
- Só meu corretor de seguros.
- E ele acertou em cheio!
- Não, eu acertei em cheio, na última mega-sena, acumulada. Vim aqui retirar o dinheiro.
- Mentira!
- Não é não. Olha aqui o bilhete...
- E você vai fazer o que com esse dinheiro todo?
- Achar uma mulher para viajar o mundo comigo nos próximos dois anos.
- Veuve Clicquot ou Moët Chandon?
- Como?
- E eu prefiro na sua... casa nova.
- Hein?
- Cala a boca e me beija!

28 fevereiro 2008

Never turn your back to the mirror

O poder do pensamento adverso realmente não pode ser subestimado. Desde pequeno aprendi a não revelar planos, sob pena de ver a força da idéia e do projeto se dispersar em palavras. Também de guri sabia que jamais se deve cantar vitória, mesmo quando vencedor, sob pena de ver o esforço desmerecido. Em suma, não tenho uma desculpa plausível para, em minha empolgação, ter esquecido tudo isso e propalado a mil ventos pequenas conquistas e bonança. "Foi o melhor inferno astral da minha vida", dizia, achando ter passado incólume pelo período. Lêdo engano, pois mal acabava de me gabar, e pequenos revézes se sucediam, minando minha decolagem no período em que eu estava "gaining momentum", diriam os periodistas anglófonos. O peixe morre pela boca. Muitas vezes não é o desejo do inimigo, para quem não se revelam segredos nem sucessos. É o "porque não eu" do amigo que te ancora. Derepente tudo o que é sólido se desmancha no ar. E não é o grande tombo o que te derruba, e sim os pequenos tropeços, no começo do caminho. As andorinhas primeiro levantam a cabeça antes de alçar vôo, disse alguém aí, mas o que fazer quando o sol te cega?

15 fevereiro 2008

Tempo regulamentar

Estavam a um beijo de mudar tudo. Dois corações pendurados em um fio para o infinito. Naquele instante o mundo parou. Estavam a duas músicas do fim do disco. Um moinho de vento entre dois lábios. O futuro a partir daquele momento. Caminhos e caninos expostos duvidavam até de sorrisos. Estavam a três versos do refrão. Respiração trêmula em olhos inertes. Baterias no eco do peito escuro. Uma ou duas vidas na mente em questão de segundos. Estavam a quatro curvas do destino. Acelerados fluxos de pulsação contínua. O chão rodava sob pés de concreto. O resto do foco era imagem borrada. Estavam a dois palitos do estopim. Quase suores escorriam disfarçadamente pelas mãos. O silêncio grave do vácuo entre os corpos. Sirenes soavam de trilha sonora. Estavam a um beijo de mudar tudo.

11 fevereiro 2008

Mémoires

Ainda gosto de dançar, bom dia, como vai você?

09 fevereiro 2008

A Solidão e a Província

- Deve ser foda mesmo, fazer um som novo e não ter para quem mostrar...

15 janeiro 2008

What about now, Joseph?

O que se faz, ao sem querer, machucar um anjo?

Luto

Perdi metade de mim
por minha culpa
Para da outra metade
sair inteiro

04 janeiro 2008

Reveillon

Suma como o cheiro do perfume colocado pela manhã, como lembranças de verões de infância. Desapareça como a sensação de um abraço forte, quando a distância já não dá mais visão para o adeus. Suma tal qual as águas na estiagem, tragadas pelo solo seco. Deixe-se ir como a vida se esvai, um pouco por dia, desde o nascimento. Perca-se na memória, limite-se ao esquecimento, consuma-se em sumidouros. Vaze com maré minguante, e não retorne com Saturno.

11 dezembro 2007

A Solidão e a Cidade

Começo este texto com um assassinato. Estou oficialmente matando o título de um romance que pretendia escrever um dia, mesmo que não seja nem original, nem meu este título. Chegou o tempo de encarar os fatos, não iria escrevê-lo mesmo. De qualquer modo acho que tudo o que diria cabe em poucas linhas neste espaço. Talvez não, talvez este romance fosse maior que tudo o que se esconde por trás de milhões de páginas da internet. O cigarro apagou. Reascendo, como as fumaças que sobem sobre meus olhos, tomo mais um gole de cerveja, e espero fazer efeito. No escuro, que também espero fazer efeito. Gosto de chegar em casa, quando sozinho, e não acender nenhuma luz, curtir o breu. O breu insinua, antes de revelar, como as mulheres de Almodóvar. Um pouco exageradas, concordo. Mas uma mulher que não exagera é apenas uma fêmea. Transformar erros em charme, meu caro Wilde, é somente para as que transcendem, naturalmente. O som do Sa Grama também transcende, merecia algo em vinil. Um Brasil elegante, um Brasil deflagrante, um Brasil do Norte. Som descritivo, para escrever. Tentar experiências novas, o texto que há tempos gesto. Ainda não tinha a Cidade cravada na carne o suficiente para deitar em palavras, e tampouco me charlava a Solidão. Fosse na Província, e teria resolvido tudo rapidamente hoje, sem pressa ou desespero, com dois telefonemas. Amigos que fazem alguma diferença sempre sabem acolher os insólitos, por semelhança ou caridade. Mais um gole de cerveja, parece que aumenta o calor. Solidão a dois é menos solidão? Gosto de contraposições de idéias, de corpos, copos e esperanças. No fundo é isso, a ressaca da alma. A promessa de que algo vai mudar radicalmente amanhã. Faríamos hinos para celebrar, canções que eternizam. Na volta para casa um leve lampejo, sozinho no carro. Mas já seria tarde para algo dramático, o sono imperaria, inapelavelmente. Mas aqui, na Cidade, os recursos são muitos e as alternativas raras. A Solidão é maior quanto maior a vontade de se estar com alguém. Mas isso tornaria impossível sentir-se assim na multidão, o que, convenhamos, acontece. Saí sozinho nos dois dias do final de semana e até que me sou uma boa companhia. A noite conheci uma guria que eu já conhecia, eu acho, me lembrou de Dama da Noite, do Caio Fernando Abreu, que, descobri, já teve uma porrada de montagens país afora. Nenhuma com nossa sonoplastia. Talvez a música fluísse mais na Província. A Cidade não é muito musical. Na volta a pé para casa o primeiro gole de cerveja, ao som de Estación Esperanza, dos venezuelanos do Mixtura. A música que me apareceu quando precisava ouví-la. As músicas, assim como as pessoas, acontecem na nossa vida, ao que tudo indica, seguindo uma lógica escalafobética. Há um tiozinho sentado em uma cadeira na calçada, na frente de sua casa funda, com luz amarela. Maneira brasileira de se refrescar ou tédio pós-trabalho? Estamos todos no mesmo barco, e la nave va. Deixo a música fazer efeito. Lembrei do Morrisey, dizendo que suas músicas não eram melancólicas, contra todas as opiniões alheias. A idéia pesava em meus ombros, mas não pedi menos peso, e sim ombros mais fortes. Matei um romance. Mais três cervejas antes de chegar em casa. Dois cigarros para chegar aqui no texto. Duvido que alguém vá ler até o final, mas não importa, ele, como esse universo criado da espera, já terá cumprido seu papel, me apresentando a Companhia. Quem sabe o tema do meu próximo romance?

04 dezembro 2007

Ligações Perdidas

- Uma chamada não atendida acabou com meu domingo...

A festa do cabelo no ralo

Três mulheres na minha casa.

26 novembro 2007

Hell hath no fury...

Em São Paulo, assim como na guerra, é bom esperar barulho depois de pisar numa mina.

19 novembro 2007

O jogo

Sempre me impressionou a habilidade de algumas pessoas em criar piadas e jogos. Pensando nisso, após muitos anos, e a muito custo, desenvolvi finalmente um jogo. Pode ser jogado sozinho, tem apenas uma regra, explícita no nome: Reclamou, perdeu.

É simples, fácil, e pode ser jogado em qualquer lugar, por qualquer um, a qualquer hora. Criei táticas que facilitam a assimilação, apesar da experiência deste jogo ser essencialmente individual, e seu maior adversário ser você mesmo. O método consiste em acordar de manhã e se propor o desafio de não reclamar, de nada, em nenhum momento do dia, independente do motivo.

Reclamou, perdeu.

Até hoje só consegui ganhar uma vez, por sorte, em um dia afônico.

PS: Estou desenvolvendo a evolução deste, chamado de Reclamou, perdeu Total, no qual nem pensamento vale. Mas duvido que alguém de fora do Tibet ganharia uma vez que seja.

Acapulco daqui a pouco

Vinte minutos após a decolagem:
- Quieres algo más, señor?
- Aeromoças mais gatas, se possível.
- Como?
- Jugo de naranja sin hielo, por favor.

12 novembro 2007

Animal Futebol?

Entre a exuberância e a técnica, qual você escolhe? Essa pergunta singela esconde uma complexidade tamanha, que ainda não consegui uma resposta convincente. Resume, em si, uma das maiores contradições que nossa vã filosofia pode atingir.

Aplicando-a ao bom e velho esporte bretão, escolha: um time que dá espetáculo, levanta a galera, e joga bonito, mas não é tão eficiente, ou um time que não joga bonito, mas ganha tudo, nem que seja por um a zero?

Há influências históricas na questão, e creio que hoje a maioria apontaria a eficiência, pelo simples fato que o objetivo maior (o campeonato) é o que interessa no fim das contas. Mas há aqueles que acreditam que é mais gostoso ver seu time perder um campeonato dando show, a sagrar-se campeão jogando um futebol mecânico.

É possível fazer analogias diversas, pois a questão é, no fundo, uma metáfora da vida. Já vi, inclusive, colegas comparando loiras e morenas sob esta ótica, com resultados que contradizem suas predileções futebolísticas.

A melhor comparação veio, inesperadamente, da colega do divã, que acha mais legal a expectativa da torcida no estádio, o lamento do Uhhhh! geral quando a bola passa rente à trave, ao grito eufórico e definitivo do gol. Ou seja: o uhh! é o sexo tântrico, e o gooool! é a ejaculação.

E aí, qual você escolhe?

24 outubro 2007

Enquete

- Tio, quem tem a melhor mira do mundo?
- É a gravidade.
- A gravidade?
- É. Toda vez que você cospe pro alto, cai rigorsamente no meio da sua testa.

15 outubro 2007

Manual prático da sobrevivência inútil

Não desça do salto, mantenha a guarda, evite conselhos. Não acuse o golpe, mantenha a calma, jamais se renda. Cause indiferença, seja indiferente, afinal, o silêncio é a pior crítica. Não se aproxime, nunca perca nem vacile. Use o escárnio como arma e o cinismo para defesa. Salive veneno. Seja incapaz de sentir, mantenha distância, respeite o respeito. Não pise na grama, não cuspa pro alto, na dúvida omita. Lave suas mãos, ponha as barbas de molho, ataque sorrindo.

03 outubro 2007

Pósliminares

Meu peito clama
seu ouvido atento
máquina do tempo
pulsa fluxo-segundos
enquanto lentamente
adormecemos

14 setembro 2007

Free the man

Achar que o mundo é plano é, no mínimo, um pensamento chato!

Missiva

- Só lembro que ele terminou a carta com “estou numa fase Djavan braba... e isso não pode ser bom sinal...”

11 setembro 2007

Sem anos de solidão

Muitos anos depois, defronte a um palco em Las Vegas, a senhora Mandrake haveria de se arrepender daquela tarde remota em que ralhou com seu filho gritando "Cresça e desapareça"!

27 agosto 2007

en passant pour ton monde

Queria não te querer
mas te quero
Entro em ebulição
enquanto te espero
Sinto duas vezes o mesmo sabor
doce amargo da distância
Permaneço na inconstância,
às vezes tudo, às vezes nada
De passagem pelos seus dedos
Sou rio peixe água em movimento
o seu calor, meu alimento
intermitente presença da falta

24 agosto 2007

SeeManCool Tea

A graça do ridículo está na inocência.

20 agosto 2007

L'ombelico del mondo

Quando se está no olho do furacão, tudo o que você pode fazer, é nada.

23 julho 2007

Cinco motivos para não ter orkut

Já discorri aqui sobre o assunto, mas, como não agüento mais ter que explicar isso em conversas em bares e afins, retomo, desta vez em definitivo:

1 - Farei um raciocínio inverso, refutando o principal motivo que as pessoas, alegremente, mencionam como a principal função do orkut: "Encontrar amigos que você não via há anos."

Esse motivo, por si só, já é contraditório, uma vez que amigos que não se vêem há anos são, no máximo, ex-colegas de escola/faculdade/clube ou qualquer outra coisa que você fazia antes, mas não faz mais. Amigos, no meu entender, sabem como e onde você está, ainda que não tenham falado contigo por um certo tempo. Amigo é quem importa, e se a pessoa sumiu da sua vida durante tanto tempo, bem ... considere que deve haver um bom motivo para isso.

2 - O orkut é a institucionalização da fofoca. É o que a maioria esmagadora dos usuários faz diuturnamente. E eu estou preocupado demais com a minha vida para ficar fuxicando a vida dos outros. Fu-xi-can-do sim! Pelo menos tenha a dignidade de assumir que você é fofoqueiro(a), que fica menos feio.

3 - Ninguém fala a verdade no orkut. E poucas pessoas dão a mínima para o que você gosta, faz, visita, come, ouve e mente que lê.

4 - "É possível conseguir um emprego pelo orkut." Isso é parcialmente verdade, mas se te recrutaram analisando as comunidades mentirosas que você diz participar, desconfie do emprego e do empregador. Os "head-hunters" estão acostumados a ouvir mentiras, (como "meu defeito é ser perfeccionista") e tal, mas contratar um cara que não tem nenhuma comunidade francamente desfavorável em seu orkut é acreditar que todos são perfeitos e felizes, adoram cinema europeu e literatura russa, e falam três línguas fluente mente. Ou o contratante é burro e cínico (pouco provável), ou o emprego é roubada (muuito provável).

5 - As declarações e descrições deixadas como depoimentos e scraps, demonstram, além do pouco domínio de português dos seus "amigos", que o que importa é o que se diz e não o que se faz. Quer fazer um teste? Ligue para o primeiro que você escolheu como depoente do vexatório "about me", e peça dez mil emprestado, para ontem. Se ele te emprestar, me apresente, que eu quero adicioná-lo!

Sobre a burrice congênita

Porque, em dias de chuva, todos os idiotas com guarda-chuva andam debaixo das marquises?

16 julho 2007

Zurda

Os sapatos, assim como os amigos e o caráter das pessoas, nós só conhecemos quando a coisa aperta.

13 julho 2007

É nóis

Frase que ouvi de uma garota que falava ao celular, em um ônibus de São Paulo, numa noite dessas:

- Pode deixar, que eu não sou honesta, mas sou de confiança.... Sou brasileira, né? (risos)

03 julho 2007

Sob o sol sem Suite Morphine

Só escrevi para te lembrar que há um dia, lá fora. E mesmo que não o cantemos, ele encanta.

21 junho 2007

Naif

No jantar de uma família espírita, Juninho, 6 anos, emburrado por não poder mais assistir desenhos animados, lança, no meio da discussão, a clássica:
- Eu não pedi para nascer!
O pai, sereno, explica:
- Não só pediu para nascer, como escolheu essa família.
Juninho pensa um pouco, e arremata:
- Então eu devia ser o último da fila!

15 junho 2007

Reveille-matin

Sinto o farfalhar lento de seus cabelos em meu peito, sua respiração leve de sono de criança. Aguardo seu acordar suave, ouço indistintamente sons de seus sonhos. Roubo em silêncio seu lençol, para admirar, de canto dos olhos, seu corpo moreno. Desligo o telefone, ignoro os jornais, peço pudor aos passarinhos. Adormecida, a bela só pode se levantar com beijos. Assustada, pensa estar atrasada para o trabalho, e se arruma rápido, enquanto mergulho em seu travesseiro, e não aviso que é domingo.

14 junho 2007

F comme Femme

Três considerações sobre o tema:

- Mesmo nuas, as mulheres jamais estão despidas de seus segredos.

- Um milhão de propósitos em um só ser.

- Nunca, eu disse NUNCA duvide de uma mulher com um motivo.

05 junho 2007

Coletiva Terra

Gosto da escrita tímida, poesia recolhida e discreta. Aos adolescentes e escritores falidos a pose para escrever, no meio de festas, ou num café com chapéu de tafetá. Prefiro o anônimo, sacar sutilmente um caderno de notas e pinçar frases soltas para este solilóquio espaço. Imagem não é nada se não imaginada. Fotos de felicidade falsa figurando no orkut fazem pouco sentido. A crise da pós-modernidade nunca foi de forma, mas sim de conteúdo. A forma é basicamente a mesma desde os gregos. O recheio da matéria, espírito, idéias, leis ou lingüiças é que desafia. Não posso ser definido em uma frase, e ainda que o fosse, não seria definitiva. A escrita é para poucos, miolo que palpita em peito escancarado. Não sou o que como, assisto, leio, pratico, ouço. Sou isso mais acima de tudo, escrevo. Tímido, recolhido e discreto, caneta tinta e papel meio ao mar. Pouco importa se não me ouvem, para as pedras o apanhador é indiferente. E se o comentário é o aplauso do blogue, vou de Newton, falando às salas vazias, grão de areia pregando ao deserto. Meu registrar impreciso não precisa de adições, é aditivo por si. Escrevo pelo vício de atirar ao espelho cacos de meus reflexos. Espero em troca, angústia do desconhecido, um pouco de melancolia, e silêncio. Não dou mais rasteiras desde que aprendi a apanhar. Aguardo dias de sol que derretem neve, comemoro pequenas vitórias. Respiro fundo depois da chuva, procuro estrelas em poças d'água. Viver é igual a escrever, começa em você e pára no mundo.

25 maio 2007

Soul

No frio, irradio
na luz, fico cego
na enchente, esvazio
no verão, hiberno

21 maio 2007

Indigna

- Chomp, chomp, chomp...
- Hey, o que você está comendo?
- Chandelle.
- Fale comigo quando você estiver falando comigo!
- Mas eu estou falando contigo!
- Não você tá comendo!
- Mas tô falando contigo. Tá bom, o que você quer que eu fale?
- Sei lá, qualquer coisa. O que você está pensando agora?
- Que chandelle é quase melhor do que você...
- O QUÊ??
- Calma, eu disse quase.
- Vá se f*!!
- Ficou brava por isso?
- Claro! Ainda se fosse nutella...

15 maio 2007

A vida é doce

Como todo bom chocólatra, tenho fases. Lembro que a primeira foi Surpresa. Tive uma breve Aerado, rapidamente descontinuada. Houve ainda a fase Charge, quando em crescimento. Há as recorrentes, como a Bis, e Prestígio, que de vez em quando volta, mas atualmente está em baixa. Mais recentemente a Sensação, que ainda bem foi passageira. Uma fase Batom, que marcou minha adolescência. Para a Diamante Negro cheguei até a inventar o slogan "Mastigue prazer". A Dois Amores foi particularmente longa. Seguiu-se a uma majoritária fase Brigadeiro, que como diz o Doidão, "é o exagero do chocolate". Não existe exagero em chocolate, assim como não faz sentido a expressão "chocolate demais". Na busca por qualidade ao invés de quantidade, reflexo de um amadurecimento talvez, ou simples enjôo, fui aos que têm mais substância, e me encontro Amaro atualmente.