13 julho 2012

Segurança priva

- Visual na janela. Vítima segura. Acesso limpo.

As sirenes cessaram, a pedido do sequestrador. Helicópteros rodando o ar, ainda assim dava para ouvir cai-cai balão tocando na vitrolinha amarela.

- Negativo, Bravo! Risco para o refém. Manter alerta.

Respiração controlada. Ele estava na mira, mas o refém poderia se machucar na queda. O acesso era limpo. Afrouxou um pouco o dedo do gatilho, respirou, mascou duas vezes o chiclete. Apurou o fone de ouvido.

- O alvo vai fazer uma exigência. Segura até ok do comandante, copiou, Bravo?

- Positivo.

O negociador, psicólogo experiente, foi chamado. A mãe gritava vez por outra, xingava. O negociador pediu que a levassem para longe. Ele ia falar, fazer exigência. Resgate? Helicópteros? Uma arma? Imunidade e dólares?

- Uma mamadeira!

O negociador hesitou. Fora dos parâmetros. Nunca haviam pedido mamadeira. Perguntou novamente.

- Eu quero uma mamadeira. E leite ninho, reforçado.

Podia ser brincadeira, pensou o negociador. Ou um teste. Por via das dúvidas, gritou para o apoio:

- Tragam uma mamadeira e leite ninho, reforçado. Agora.

A equipe ficou em dúvida. O negociador confirmou com os olhos. Voltou a atenção para ele. Estava tão perto que quase podia pegar o bebê. Mas ele entrou, a criança começou a chorar. Aumenta o volume de cai-cai balão dentro do quarto.

- Status, Bravo?

- Visual aberto. Ele está dançando e jogando o refém para o ar. O refém sorri até vomitar.

Chega a primeira equipe de tevê. Vem o comandante, de quepe e ar firme.

- Comandante, por favor, explique a situação. Parece que um homem sequestrou um bebê, é isso?

- Aparentemente sim.

- Qual a relação dele com a criança?

- É o pai, aparentemente.

- E a mãe, cadê?

- Foi expulsa da casa, estava aparentemente embriagada.


- Ela saiu da própria casa?

- Ao que consta a casa é dele. Ela é que veio morar com ele quando engravidou, segundo versão dela.

- E o bebê corre risco?

- Positivo. Ele parece estar sob efeito de entorpecentes, então positivo.

O rádio tocou. Alguns números. O comandante sai apressado. Encontra o negociador.

- Ele pediu o reforçado, diz que não aceita esse, e agora quer leite morno, duas fraldas, e uma pizza.

- Onde eu vou achar um leite reforçado agora? Vai ter que ser esse. Não dá para providenciar mais nada. Daqui a pouco ele tá pedindo festa com palhaço.

O negociador avisa. Diz que não vai mais negociar enquanto não houver prova de que o refém está vivo e bem. Recebe uma fralda suja no peito. E uma porta batida.

- Bravo, status?

- Tenho visual. Refém pelado. Ele procura algo na gaveta. Possível arma. É uma meia. Com cara de sapo.

- Bravo, atire na vitrolinha!

O tiro foi certeiro. Ele se assustou. A polícia entrou. Ele não ofereceu resistência. O refém estava bem. Dormindo. De chupeta. O movimento foi um sucesso. O comandante na coletiva. Repórteres afoitos:

- Foi uma jogada de mestre, comandante. O senhor assustou ele, que ficou distraído. De onde veio a ideia, comandante? Foi treinada? É o padrão nesse tipo de operação?

- Não. É que eu não aguentava mais cai-cai balão.

2 Comments:

Blogger Mariana said...

Até que enfim a história real foi contada! Brasília agradece. Beijos mil.

2:45 PM  
OpenID ladrilhodissoluto said...

Que texto foda! de onde veio esse? cara, ainda tomo uma cerveja contigo um dia desses. abraços companheiro.

12:42 PM  

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