22 fevereiro 2006

Pro dia não ser feliz

Quase às três da tarde ele descia a rua com o cabelo engomado. O mesmo terno roxo mandrake, as botas pretas, e o rabo de cavalo. Tomava sete copos d'água para cada um de cachaça. Caminhava sempre discreto, reto e ereto. Na compostura. Passadas longuilíneas em contratempo. Carregava uma pasta cheia de jornais antigos ou não. Era empresário sócio do conselho diretivo. Por isso o tempo elástico. Expediente das 10 até o último freguês. Cambaleava, mas era ginga. Seu velho fraque italiano já não lhe servia, e ele pensou que isso não era bom. Achava que o álcool era pior que cigarro, por isso dizimava ambos. O bigode aparado e engomado dava um ar de respeito, mas o olhar nunca engana. Dizia pra si mesmo que estava recolhendo material para seu grande romance, que o bar era o viveiro dos perdidos temas essênciais. Peixe dentro d'água que o passarinho não mata o guarda. A mardita, ingrata mineira. Tricordiana de Luis Alves, ou seria o contrário? Já não importava, cantava velhas canções com grandes amigos dos últimos minutos, e voltava para casa com a alma enxaguada.

2 Comments:

Blogger quê? said...

keep grooving.

3:12 AM  
Anonymous Anônimo said...

Interesting website with a lot of resources and detailed explanations.
»

7:02 AM  

Postar um comentário

<< Home